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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Quinta da Poesia: O Monstrengo

O mostrengo que está no fim do mar 
Na noite de breu ergueu-se a voar; 
A roda da nau voou três vezes, 
Voou três vezes a chiar, 

E disse: "Quem é que ousou entrar 
Nas minhas cavernas que não desvendo, 
Meus tectos negros do fim do mundo?"
E o homem do leme disse, tremendo: 

"El-Rei D. João Segundo!"
"De quem são as velas onde me roço? 
De quem as quilhas que vejo e ouço?" 
Disse o mostrengo, e rodou três vezes, 

Três vezes rodou imundo e grosso. 
"Quem vem poder o que só eu posso, 
Que moro onde nunca ninguém me visse 
E escorro os medos do mar sem fundo?" 

E o homem do leme tremeu, e disse: 
"El-Rei D. João Segundo!"
Três vezes do leme as mãos ergueu, 
Três vezes ao leme as reprendeu, 

E disse no fim de tremer três vezes: 
"Aqui ao leme sou mais do que eu: 
Sou um povo que quer o mar que é teu; 
E mais que o mostrengo, que me a alma teme 

E roda nas trevas do fim do mundo, 
Manda a vontade, que me ata ao leme, 
De El-Rei D. João Segundo!"

- Fernando Pessoa.


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